Você já precisou calcular o valor exato dos juros já acumulados de um título com pagamentos periódicos de cupom, entre a emissão (ou o último pagamento) e uma data de liquidação específica, sem montar manualmente a fração de dias decorridos? Ou vinha usando as funções CUPDIASINLIQ e CUPDIAS para chegar nesse valor por conta própria, célula por célula?
Nos artigos anteriores desta série sobre funções de cupom, mostramos como calcular manualmente a proporção de juros acumulados combinando CUPDIASINLIQ e CUPDIAS. O Excel tem uma função que já faz esse cálculo completo de uma vez, incluindo o caso mais complexo de uma liquidação que acontece vários períodos depois da emissão original.
Neste artigo vamos mostrar como usar a função JUROSACUM para calcular os juros acumulados de um título com cupons periódicos, de forma completa e automática.
O que é a função JUROSACUM
JUROSACUM (equivalente à ACCRINT em inglês, de “accrued interest”) calcula o valor dos juros acumulados de um título com pagamentos periódicos de cupom, desde a emissão (ou desde o último pagamento) até a data de liquidação informada.
A sintaxe é:
=JUROSACUM(emissão; primeiro_juro; liquidação; taxa; valor_nominal; frequência; [base]; [método_calc])
- emissão: a data de emissão original do título
- primeiro_juro: a data do primeiro pagamento de cupom
- liquidação: a data até a qual você quer calcular os juros acumulados
- taxa: a taxa de cupom anual do título
- valor_nominal: o valor de face do título (o valor sobre o qual os juros incidem)
- frequência: número de pagamentos de cupom por ano — 1, 2 ou 4
- base (opcional): a convenção de contagem de dias — padrão é 0 (30/360)
- método_calc (opcional): VERDADEIRO (padrão) para calcular desde a emissão; FALSO para calcular só a partir do último pagamento de cupom antes da liquidação
Exemplo prático
Para um título com emissão em 01/01/2024, primeiro pagamento de cupom em 01/07/2024, taxa de cupom de 8% ao ano, valor nominal de R$ 1.000, frequência semestral, calculando os juros acumulados até 01/04/2024 (liquidação dentro do primeiro período, três meses depois da emissão):
=JUROSACUM(“01/01/2024”; “01/07/2024”; “01/04/2024”; 0,08; 1000; 2)
O resultado é R$ 20,00 — a metade do valor de meio cupom (R$ 40,00 seria o cupom cheio do semestre), já que a liquidação cai exatamente na metade do primeiro período.

O argumento método_calc: emissão ou último cupom
Esse argumento opcional é importante quando a liquidação acontece vários períodos depois da emissão original do título. Com método_calc em VERDADEIRO (o padrão), a JUROSACUM soma os juros de todos os períodos completos entre a emissão e o último cupom antes da liquidação, mais a fração do período atual — ou seja, calcula o total acumulado desde o início da vida do título. Com FALSO, a função ignora os períodos anteriores e calcula só a fração do período de cupom atual, como se o título tivesse “nascido” no último pagamento de cupom antes da liquidação.
Por que essa distinção importa
Na prática de mercado, o valor relevante para uma negociação no mercado secundário é sempre o juro acumulado desde o último cupom pago, não desde a emissão original — é esse valor que o comprador precisa pagar ao vendedor, além do preço “limpo” do título. Por isso, ao usar a JUROSACUM para esse fim, método_calc deve ser definido como FALSO. O modo VERDADEIRO (padrão) é mais utilizado para conferências contábeis relacionadas à vida completa do título, não para negociações pontuais.
JUROSACUM vs cálculo manual com CUPDIASINLIQ e CUPDIAS
✅ JUROSACUM é mais completa, já lidando automaticamente com múltiplos períodos entre a emissão e a liquidação, sem precisar de fórmulas auxiliares
❌ O cálculo manual com CUPDIASINLIQ e CUPDIAS ainda é útil para entender o mecanismo por trás do cálculo, ou quando você precisa só da fração do período atual, sem se preocupar com múltiplos períodos anteriores
Erro comum
O erro mais comum é esquecer de ajustar o argumento método_calc para FALSO ao calcular juros acumulados para fins de negociação de mercado secundário, deixando o padrão VERDADEIRO sem perceber — isso pode gerar um valor de juros acumulados muito maior que o esperado, somando períodos inteiros anteriores que não deveriam entrar na conta. Outro erro é confundir valor_nominal com o preço de mercado do título — valor_nominal é sempre o valor de face (geralmente 1000 ou 100, dependendo da convenção usada), não o preço pago na compra.
Combinando JUROSACUM com PREÇO para chegar no preço “sujo” de um título
Uma aplicação prática comum é somar o resultado da JUROSACUM ao preço “limpo” calculado pela PREÇO, chegando no chamado preço “sujo” (dirty price) — o valor total que o comprador realmente paga em uma negociação, incluindo os juros acumulados do período atual:
=PREÇO(…) / 100 * valor_nominal + JUROSACUM(…; método_calc=FALSO)
Essa soma é importante porque o preço cotado no mercado (limpo) não inclui os juros acumulados — eles são somados separadamente na hora do fechamento da negociação, e é justamente esse valor total que aparece no boletim de compra.
Montando uma tabela mostrando o crescimento dos juros acumulados ao longo do período
Para visualizar como os juros acumulados crescem conforme a liquidação avança dentro do período de cupom, monte uma tabela variando só a data de liquidação:
=JUROSACUM($B$1; $B$2; A5; $B$4; $B$5; $B$6; ; FALSO)
Onde A5 contém diferentes datas de liquidação dentro do mesmo período. O resultado mostra um crescimento linear e previsível, consistente com a natureza de “juro simples proporcional ao tempo” desse tipo de cálculo.
Disponibilidade
JUROSACUM está disponível em todas as versões do Excel — 365, 2021, 2019, Mac, Online. O Google Sheets tem a função equivalente com o mesmo nome, JUROSACUM.
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Ficou clara a diferença entre os dois modos de cálculo (método_calc VERDADEIRO ou FALSO)? Você já precisou calcular juros acumulados para uma negociação real de título? Conta para nós nos comentários!