A função BDV do Excel calcula a depreciação de um ativo pelo método de saldos decrescentes, permitindo somar qualquer intervalo de períodos (inclusive fracionários) e trocando automaticamente para o método linear quando esse método passa a gerar um valor de depreciação maior — evitando que o ativo fique “preso” perto do valor residual por tempo demais.
Se você já calculou a depreciação de uma máquina, veículo ou equipamento usando o método de saldos decrescentes, provavelmente notou um problema no fim da vida útil: como esse método aplica sempre a mesma taxa sobre o saldo restante, o valor depreciado vai diminuindo cada vez mais devagar, e o ativo nunca chega exatamente ao valor residual dentro do prazo esperado.
Para contornar isso na mão, seria preciso montar uma fórmula SE comparando, período a período, o resultado do saldo decrescente com o resultado do método linear, e trocar manualmente de fórmula no momento certo — um trabalho chato de repetir em cada planilha de ativo imobilizado, e fácil de errar o ponto exato da troca.
Neste artigo iremos mostrar a sintaxe exata da função BDV, a diferença dela para as funções de depreciação BD e BDD, um exemplo prático completo (incluindo o momento em que ela troca automaticamente de método), e os erros mais comuns na hora de usá-la.
Atenção: BDV não é uma função de banco de dados
Antes de mais nada, um alerta importante: o Excel tem uma família inteira de funções que começam com o prefixo “BD” e trabalham com bancos de dados — BDSOMA, BDMÉDIA, BDCONTAR, BDCONTARA, BDMÁX, BDMÍN, entre outras — que resumem valores de uma lista de registros filtrando por critérios. A BDV não faz parte dessa família. É uma função inteiramente financeira, usada para depreciação de ativos, e o nome só coincide no prefixo. Em inglês, ela se chama VDB (variable declining balance, ou “saldo decrescente variável”), o que deixa mais claro que se trata de depreciação, e não de consulta a dados.
Sintaxe da função BDV
A sintaxe da função é:
=BDV(custo; recuperação; vida_útil; início_período; final_período; [fator]; [sem_mudança])
Os cinco primeiros argumentos são obrigatórios, e os dois últimos são opcionais:
| Parâmetro | Obrigatório? | O que representa |
|---|---|---|
| custo | Sim | O custo inicial de aquisição do ativo |
| recuperação | Sim | O valor do ativo ao final da depreciação (valor residual). Pode ser 0 |
| vida_útil | Sim | O número de períodos ao longo dos quais o ativo é depreciado |
| início_período | Sim | O período inicial para o qual se deseja calcular a depreciação |
| final_período | Sim | O período final para o qual se deseja calcular a depreciação |
| fator | Não | A taxa de declínio do saldo. Padrão é 2 (método de saldos decrescentes em dobro) |
| sem_mudança | Não | VERDADEIRO impede a troca para depreciação linear, mesmo quando ela resultaria em valor maior. Padrão é FALSO (permite a troca) |
Exemplo prático completo
Considere um ativo comprado por R$ 2.400,00, com valor residual estimado de R$ 300,00 ao final de uma vida útil de 10 anos. Para calcular a depreciação apenas do primeiro ano, ou apenas do primeiro mês (convertendo a vida útil para 120 meses), as fórmulas ficam assim:
| Fórmula | O que calcula | Resultado |
|---|---|---|
| =BDV(2400; 300; 10; 0; 1) | Depreciação do 1º ano (do período 0 ao período 1) | R$ 480,00 |
| =BDV(2400; 300; 120; 0; 1) | Depreciação do 1º mês (vida útil em meses: 120) | R$ 40,00 |
Repare que, para calcular por mês em vez de por ano, basta trocar a vida_útil de 10 (anos) para 120 (meses) e ajustar início_período e final_período na mesma unidade — de 0 a 1 passa a representar o primeiro mês, não mais o primeiro ano.
Vendo a troca automática para o método linear na prática
Para visualizar claramente o momento em que a BDV troca de método, veja um ativo mais simples: custo de R$ 10.000,00, sem valor residual (recuperação = 0), vida útil de 5 anos e fator padrão (2). Calculando a depreciação ano a ano com =BDV(10000; 0; 5; período_inicial; período_final), o resultado de cada ano é:
| Ano | Valor contábil no início do ano | Depreciação do ano | Valor contábil no final do ano | Método aplicado |
|---|---|---|---|---|
| 1 | R$ 10.000,00 | R$ 4.000,00 | R$ 6.000,00 | Saldos decrescentes (BDD) |
| 2 | R$ 6.000,00 | R$ 2.400,00 | R$ 3.600,00 | Saldos decrescentes (BDD) |
| 3 | R$ 3.600,00 | R$ 1.440,00 | R$ 2.160,00 | Saldos decrescentes (BDD) |
| 4 | R$ 2.160,00 | R$ 1.080,00 | R$ 1.080,00 | Linear (a partir daqui) |
| 5 | R$ 1.080,00 | R$ 1.080,00 | R$ 0,00 | Linear |
Repare que, nos três primeiros anos, o valor de depreciação segue o padrão de saldo decrescente (sempre 40% do saldo do início do ano, já que o fator padrão 2 dividido pela vida útil de 5 anos resulta numa taxa de 40% ao ano). A partir do 4º ano, o valor que o método linear geraria (dividir o saldo restante pelos anos restantes) passa a ser maior que o valor do saldo decrescente — e a BDV troca automaticamente para o método linear a partir desse ponto, garantindo que o ativo chegue exatamente a R$ 0,00 (o valor residual definido) ao final do 5º ano.
Usando o argumento sem_mudança para manter o saldo decrescente puro
Se a sua necessidade é replicar exatamente o comportamento da função BDD (saldos decrescentes duplos), sem nenhuma troca para o método linear, defina o argumento sem_mudança como VERDADEIRO: =BDV(10000; 0; 5; 3; 4; 2; VERDADEIRO). Nesse caso, a BDV mantém o cálculo pelo saldo decrescente do início ao fim, mesmo que isso signifique nunca alcançar exatamente o valor residual dentro da vida útil informada — é a escolha certa quando uma política contábil específica exige estritamente o método de saldo decrescente, sem transição.
BDV vs BD vs BDD: qual escolher
O Excel tem três funções de depreciação por saldo decrescente, e a diferença entre elas costuma confundir: a BD usa uma taxa fixa calculada a partir do valor residual (método de saldo decrescente “puro”, da forma tradicional contábil), a BDD aplica uma taxa fixa definida por um fator (o dobro da taxa linear, por padrão) sobre o saldo de um único período por vez, e a BDV faz o mesmo cálculo da BDD, mas permite somar um intervalo de vários períodos de uma vez (inclusive fracionários) e, por padrão, troca sozinha para o método linear perto do fim da vida útil. Na prática, a BDV é a mais flexível das três, e a escolha mais indicada quando o ativo é comprado ou vendido no meio de um período fiscal, ou quando a política contábil aceita (ou exige) a transição automática para linear. Para uma visão geral comparando todos os métodos de depreciação disponíveis no Excel, incluindo o método linear simples, veja também nosso artigo completo sobre como calcular depreciação no Excel.
Erros comuns ao usar a função BDV
O erro mais frequente é confundir a BDV com as funções de banco de dados só pelo prefixo do nome, o que leva a procurar essa função no lugar errado ou esperar que ela filtre uma lista de registros. Outro erro comum é inverter início_período e final_período, ou informar um final_período maior que a própria vida_útil — em ambos os casos o Excel retorna o erro #NÚM!. Também é comum esquecer que início_período e final_período podem (e muitas vezes devem) ser fracionários quando o intervalo não coincide com anos fiscais inteiros — usar só números inteiros por hábito, vindo de outras funções de depreciação, faz perder justamente a vantagem que diferencia a BDV das demais.
Disponibilidade
A função BDV está disponível em praticamente todas as versões do Excel, incluindo Excel 2003 em diante, Excel 2016, 2019, 2021, 2024, Excel para Microsoft 365 (Windows e Mac) e Excel Online. No Google Sheets, a função equivalente tem o mesmo nome, BDV (VDB em inglês), com a mesma sintaxe e os mesmos sete argumentos.
Perguntas frequentes
BDV é uma função de banco de dados, como BDSOMA ou BDMÉDIA?
Não. Apesar de começar com o prefixo “BD”, igual às funções de banco de dados (BDSOMA, BDMÉDIA, BDCONTAR e outras, que resumem valores de uma lista com base em critérios), a função BDV é totalmente diferente: é uma função financeira de depreciação de ativos, equivalente à VDB do inglês (“variable declining balance”). Ela não tem relação nenhuma com bancos de dados ou critérios de filtro — o nome só compartilha o prefixo por coincidência de nomenclatura.
Qual a diferença entre BDV e BDD?
A BDD (saldos decrescentes duplos) calcula a depreciação de um único período isolado, sempre pelo método de saldo decrescente, sem trocar para o método linear. Já a BDV soma a depreciação de um intervalo de períodos (que pode até ser fracionário, como do mês 6 ao mês 18) e, por padrão, troca automaticamente para o método linear quando esse método passa a gerar um valor de depreciação maior — o que evita que o ativo demore demais para se aproximar do valor residual no fim da vida útil.
Posso usar a BDV para calcular depreciação mensal em vez de anual?
Sim. Basta informar a vida_útil em meses (por exemplo, 120 para um ativo com 10 anos de vida útil) e usar início_período e final_período também em meses (0 e 1 para o primeiro mês, 1 e 2 para o segundo mês, e assim por diante). O exemplo prático deste artigo mostra exatamente essa conversão, com o mesmo ativo calculado por ano e por mês.
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